Filmes de 2015

sexta-feira, 27 de outubro de 2017


O que gostei em O Menino que Desenhava Monstros, de Keith Donohue


Não é surpresa que a Darkside Books faz uma arte de capa formidável, mas confesso que ainda fico fascinada com dedicação e o empenho aos detalhes que a editora dispõe.
No livro, O Menino que Desenhava Monstros, a contracapa possui lindos desenhos que dramatizam a história como se estivessem sobrepostos em alto-relevo. Na capa frontal, tanto o título quanto o desenho da boca do monstro, também são em alto-relevo, com uma textura grossa, um trabalho, realmente extraordinário. Outro detalhe digno de nota são as páginas finais, onde o leitor encontra um espaço em branco para desenhar seus próprios monstros.


                                                              O Autor

Keith Donohue é um romancista norte-americano, nascido e criado na Pensilvânia, que já escreveu vários discursos para presidentes e críticas literárias para o Washington Post. Entre suas principais obras estão:
The Motion of  Puppets  2016
The Irish Anatomist: Um Estudo de Flann O´Brien 2002
Anjos da Destruição 2009
A Criança Roubada, obra mais conhecida no Brasil
O Menino que Desenhava Monstros
Donohue teve seus livros traduzidos para mais de uma dúzia de idiomas e seu último trabalho, O Menino que Desenhava Monstros já teve os direitos vendidos para o cinema.

A História, o cenário e as personagens



É um pseudo-terror psicológico que se desenvolve gradativamente. Possui poucas personagens, o cenário é uma cidadezinha costeira do Estado do Maine. O tempo dos acontecimentos é linear, começa pouco antes do Natal e se estende até o Ano-Novo.
Jack Peter é um garoto de 10 anos que sofre da Síndrome de Asperger, uma condição neurológica caracterizada por dificuldades significativas na interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. O termo médico atual é, Desordem do Espectro Autista de Nível 1.
Peter ou J. P. sofre um acidente aos 7 anos, que contribuí muito para seu atual estado psicológico, adquirindo, Agorafobia, o medo da exposição à espaços abertos, tornando-se um recluso.
Aparentemente a história fala sobre o cotidiano de Jack e seus pais, Holly e Tim, o desgaste e a luta contra as limitações do filho, como encaram o problema e como lidam com as dificuldades recorrentes.
Holly tem dificuldade para aceitar e entender o que acontece com o filho, entretanto, pior do que isso, Holly tem medo de Jack, medo do que ele possa fazer com ela e consigo mesmo. As agressões, o olhar ameaçador, as visões do filho e os monstros embaixo da cama. Apesar de escassas, outras personagens se mostram  bastante importantes no decurso da história: Fred, Nell e Nick, o único amigo de Jack, o padre Bolden e a Srta Tiramaku.
Tim, o pai de Jack, se recusa a ver que o filho está a cada dia pior, o garoto passa por diversas fases em que fica obcecado por determinada atividade e sua obsessão atual é: desenhar monstros.
Os pais de Jack não dão muita importância ao passatempo do filho, mas à medida que o garoto desenhava obstinadamente, as pessoas a sua volta passam a ter pesadelos, visões e alucinações que fogem da realidade.
Mergulhar neste cenário frio e chuvoso foi bastante agradável, o autor conseguiu criar uma atmosfera funesta e edênica simultânea inserindo ainda, lendas japonesas e histórias de naufrágios na costa do Maine.


As personagens são muito bem construídas, são personagens individuais e esféricas, o autor coloca o leitor a par de todos os pensamentos e sentimentos dos protagonistas, de uma forma que fica bem explícita a realidade por trás dos pensamentos de cada um deles, tornando-os quase reais.
Muitos leitores afirmaram que o começo do livro é bastante lento, há quem conseguiu ler, apenas 70 páginas, durante um mês inteiro. Dificuldades á parte, a escrita de Donohue é bastante atual e simples, minha leitura durou apenas 10 dias, ( tudo isso???), sim, devido a outros compromissos, mas o livro criou um suspense espontâneo e envolvente logo no início que aos poucos arrastou-me para as últimas páginas, simplesmente a leitura fluiu sustentada pela bisbilhotice de leitora ávida por saber o que está acontecendo.
Não diria que este livro é de terror/horror, está mais para um drama aflitivo e angustiante tanto pela trajetória de dificuldades e superação dos pais de Jack e do próprio Jack, quanto pelas histórias de fantasmas- yureis aprisionados em seus infortúnios comoventes. A história dá muito o que pensar, as tristezas, os receios, os pesadelos de cada um, mas o mis bizarro são os monstros criando vida a partir de desenhos inofensivos, intrometendo-se na realidade lógica que conhecemos, algo bastante insólito e inusitado.
Os monstros são reais ou são só frutos da imaginação dos habitantes da casa e os que os visitam, como Nick, o garoto? Cabe a cada leitor tirar suas próprias conjecturas a respeito, mas o final é surpreendente, fiquei com ciscos nos olhos.

As Narrativas Paralelas


Quando Holly vai visitar o padre Bolden, surpreende-se com um grande quadro na parede da sala de jantar, “ O Naufrágio do Porthleven, 1849”. É importante entender que o autor fez um paralelo histórico com o navio Hannah, que afundou em circunstâncias terríveis no Golfo de São Lourenço, ali, pertinho, nas costas do Maine, cenário da história criada por Donohue.
Na verdade o enigmático quadro na parede do padre Bolden, trata-se do navio Civiet que encalhou a 300 metros a leste do porto de Porthleven, em Cornwall, na Inglaterra, durante uma tempestade. Três pessoas morreram, o acidente aconteceu em 26 de janeiro de 1884, e viajava de St. Domingo para Falmouth.

                                                   O Civiet, encalhado em Porthleven

Porthleven é um porto e não um navio, não existem relatos históricos do naufrágio de nenhum navio com este nome. Já a história do Hannah é trágica e verídica e pode ser encontrada em The Ships List, disponível em: http://www.theshipslist.com/ships/Wrecks/hannah1849.shtml.
O Hannah vinha de Warrenpoint e de Newry, na Irlanda e trazia imigrantes que fugiam da fome, quando afundou no Golfo de São Lourenço, em 29 de abril de 1849, o mesmo ano do quadro na parede do padre Bolden.
Estima-se que 180 pessoas morreram no naufrágio, mas não se sabe ao certo o número real de vítimas, pois a lista de passageiros foi perdida, todos trabalhadores agrícolas com suas famílias em busca de uma vida melhor na América.
O Hannah atingiu um recife de gelo que perfurou o casco, afundando em 40 minutos. O inexperiente capitão, Curry Shaw, de 23 anos e seus oficiais, fugiram no único barco salva-vidas disponível, abandonando o restante dos passageiros à própria sorte, no congelante Atlântico.
O Golfo de São Lourenço é foz do rio do mesmo nome e possui, 1197 Km de extensão, sendo fronteira natural entre Estados Unidos e Canadá, atravessando vários estados americanos, inclusive o Maine, desaguando no Atlântico.
Na história o padre Bolden conta que o Porthleven saiu da Cornualha em um novembro tranquilo e afundou nas costas do Maine em uma noite de nevasca de dezembro e ninguém sobreviveu ao seu naufrágio.
Esta sincronia histórica que Donohue faz dentro da narrativa é bastante criativa e fecunda, porém, deveria ter considerado mais as possibilidades de desenvolvimento criando focos secundários maravilhosos.


Outros pontos pouco explorados pelo autor são as personagens, padre Bolden e a Srta Tiramaku. A governanta possui uma aura misteriosa hermética e discutível, mas o autor não leva isso em frente. A questão do naufrágio do Pothleven, mesmo sendo de origem fictícia, e a lenda dos fantasmas yureis, contada pela Srta Tiramaku, também poderiam ter sido mais desdobrada e inseridas no contexto narrativo, mas acabam sendo relegadas a segundo plano.
Todavia, esta é uma grande história com seus personagens marcantes e um  cenário delicioso, o que faz esta leitura valer muito a pena!!!!




By Stelamaris Bagwell



quinta-feira, 26 de outubro de 2017


Os Livros mais Indigestos da                  Literatura

Quem não se lembra da polêmica suscitada pelo romancista britânico, Nick Hornsby, no último festival literário de Cheltenham. O autor propôs aos leitores queimar numa grande pira os livros de escrita complicada da Literatura Universal. Sim, aquele livro famoso, muito comentado, citado como leitura obrigatória entre os acadêmicos. Aquele que viaja em malas, bolsas e sacolas dos leitores, por muitos lugares, mas que permanecem sem serem lidos, ou aqueles conhecidos frequentadores da mesinha de cabeceira e listas literárias.
Livros que são lidos sem entusiasmo, porque seus leitores não admitem serem vencidos por eles.
Após a manifestação inusitada de Hornsby, muitas mídias sociais passaram a divulgar mais sobre o assunto, pilhas e pilhas de artigos foram espalhados na rede. Falar abertamente sobre livros clássicos que possuem escritas indigestas deixou de ser tabu e passou a ser tema de afinidade entre os amantes da literatura, que saíram do armário e confessaram seus piores pesadelos e dificuldades com a leitura de certas obras.
Outro romancista britânico, Kingsley Amis, foi ainda mais longe, segundo o autor, a vida humana é muito breve para escolhas de leituras prolixas e complicadas. Kingsley chegou a afirmar que só leria romances  iniciados com a prévia: " Escutou-se um disparo", ou seja, que vão direto ao assunto.
É bastante interessante o ponto de vista desses homens das letras, ponto de vista que muitos leitores, meros mortais, já tiveram em algum momento de suas vidas, mas não foram audaciosos o bastante para dizer.
Muitos são os livros que rogam do leitor muita paciência e conhecimentos extralinguísticos para vencer intermináveis páginas de monólogos. Eis uma lista com alguns deles:

1) Decamerão ou Decameron, de Giovanni Boccaccio



Do grego antigo, deca, "dez", hemeron, "dias ou jornadas". Trata-se de um compêndio de cem novelas escritas pelo italiano Giovanni Boccaccio, entre 1348 e 1353. Essas novelas são contadas por dez pessoas que se abrigam da Peste Negra em uma isolada vila de Florença. São contos que vão do erótico ao trágico e possuem grande valor literário e histórico, um autêntico documento da vida social da época, escrito em vernáculo florentino. A obra é um marco literário que narra a moral medieval e prenuncia o realismo italiano.
Mas o problema começa logo na escrita de Boccaccio. O autor usa termos e comparações da época, o que pode soar meio estranho e meio sem sentido para o leitor do século XXI. As histórias contadas pelos protagonistas vão se tornando monótonas pela forma detalhista de como são narradas, apesar da temática ser excelente. Mesmo o Decamerão tendo influenciado grandes autores como Voltaire, Moliérie, Martinho Lutero, Antônio Vivaldi, Alfred Tennyson, dentre outros, o leitor contemporâneo precisa fazer uma força sobre-humana para vencer as 582 páginas do livro.

2) Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski


Sem dúvidas, Dostoiévski foi e continua sendo um dos maiores romancistas da História da Literatura. Fundador do existencialismo, profundamente elogiado por Walter Kaufman, as obras do autor são um tratado completo sobre a aniquilação, a humilhação e a autodestruição humana. Temas como assassinato, suicídio, loucura e inveja, permeiam a escrita do mestre russo, o chamado "romance de ideias", mas apesar de ser aclamado e descrever as patologias sociais como poucos, Fiódor escreveu um livro que poucos leitores conseguem chegar até o final. Sim, Irmãos Karamazov, escrito em 1879, elogiado por Freud como " a maior obra da história", é um livro extenso e difícil. Extenso por narrar, detalhadamente a biografia de cada personagem, bem como, a filosofia de vida e o estado de espírito de cada um. O próprio narrador se desculpa várias vezes durante a narrativa com os leitores por ser prolixo. O livro passa de 700 páginas. A história é simples, um pai é assassinado pelo filho bastardo, ponto. Mas Dostoiévski, consegue encher páginas e páginas de monólogos psicológicos e espirituais, e mesmo que tais discursos tenham agradado a muitos eruditos ao longo do tempo, os leitores atuais, torcem o nariz.

3) Guerra e Paz, de Leon Tolstói


Outro grande nome da literatura russa é lembrado quando se fala em livros complicados. Leon Tolstói, é constantemente citado como grande expert em "encher linguiça", muitos leitores são até sarcásticos em relação a Guerra e Paz e quando perguntados por que não conseguiram ler a obra de Tolstói, afirmam: " apesar de ter lido muito, nem cheguei ao primeiro disparo da guerra". Outros preferem ver a versão cinematográfica e deixar a leitura para os heróis. Tolstói escreveu Guerra e Paz quando se recuperava de uma fratura ocasionada pela queda de um cavalo, o que pressupõe, um tempo bastante longo para relatar a invasão napoleônica ao território russo. Tolstoí desenvolve uma narrativa fatalista da História, e apesar de criar um novo gênero de ficção e fazer muito sucesso quando publicado em 1863, hoje, poucos leitores conseguem concluir a leitura do livro. Mas o fato mais inusitado sobre Guerra e Paz, foram as centenas de vezes em que a esposa do autor passou o manuscrito a limpo, haja dedicação e paciência.

4) A Divina Comédia, de Dante Alighieri


Definitivamente este livro não é para qualquer leitor. Motivo: além da escrita erudita, o leitor necessita ter um prévio e sólido conhecimento histórico e enciclopédico. O poema escrito por Dante, no século XIV, consumiu quase toda a vida do autor e traça um panorama ácido e pessimista da sociedade da época. Dante manda, literalmente,  muitos personagens reais para o inferno. Sabe-se que o autor foi exilado de Florença após divergências e disputas políticas, e que morreu no exílio sem nunca ter retornado à sua cidade natal, o descontentamento e a tristeza com o exílio foi o escopo no qual o autor edificou sua obra-prima, com a punição dos corruptos e a redenção dos humilhados. Ninguém duvida da da importância literária e do peso histórico da obra de Dante, entretanto, muitos leitores não vão além do Inferno, a primeira parte do poema.

5) Moby Dick, de Herman Melville


Costuma-se dizer no meio literário que os leitores de Moby Dick quando se deparam com a extensão e a complexidade da narrativa, não compartilham 
do mesmo entusiasmo para a leitura, como Ahab em caçar a baleia branca. As sinopses e resenhas de Vlogs sobre o livro tem atraído a curiosidade de muitos leitores, principalmente após o lançamento do longa-metragem, No Coração do Mar, baseado no livro de Nathaniel Philbrick, e estrelado por Crhis Hemsworth, no papel de Owen Chase, o primeiro oficial do Essex, o baleeiro afundado por um grande cachalote branco. A tragédia do Essex que naufragou em 1820, deu a Melville todo o script para escrever seu livro. Melville foi um lobo do mar, conhecia perfeitamente todo o " modus operandi" para se caçar baleias, assim como, a rotina dos dias em alto-mar e o nome de cada peça do navio. Exatamente por esse motivo, muitos leitores dizem que o autor matou o livro, Melville coloca todo seu conhecimento de forma detalhada no enredo. Apesar da história continuar sendo fantástica, existem casos de leitores que levam de 2 a 4 meses para finalizar a leitura de mais de 500 páginas.

6) As Aventuras do Bom Soldado Sveijk, de de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes


O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”. No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência.

7) Paradiso, de José Lezama Lima


As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil.

8) A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne


Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.

9) O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon


No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX.

10) Paraíso Perdido, de John Milton


Este poema épico escrito pelo erudito inglês John Milton em 1667 em dez cantos, narra a saga dos anjos caídos após a rebelião no céu e a queda do homem através do ardil de Satanás. Assim como na Divina Comédia, de Dante, a obra de Milton também é carregada de alusões históricas, literárias, além de citações bíblicas, que é a base do poema. A escrita de Milton também é outro fator complexo, é extremamente erudita com termos e vocábulos conhecidos apenas por leitores assíduos de dicionários. Um fato curioso sobre Paraíso Perdido, foi a forma como o poema foi escrito. John Milton ficou completamente cego no decorrer da escrita do livro e ditou quase metade do poema para que suas filhas e seus funcionários o concluíssem, o que torna ainda mais brilhante a engenhosidade e a criação literária do autor. É uma pena que muitos leitores não levam isso em conta.

Existem muitos outros livros que não entraram nesta lista mas que possuem as mesmas características e graus de dificuldades citado pelos leitores. Mesmo com tanta reclamação, tais obras continuam sendo referência em grandiosidade literária, são os clássicos, que permanecem com toda sua glória, mesmo com a insensibilidade dos mortais.




quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

ANÁLISE LITERÁRIA DE O CRIME DO PADRE AMARO

                                      

                                             O Autor

Eça de Queirós foi um dos grandes nomes da literatura portuguesa. O escritor participou de um período de mudança, em que o romantismo dava lugar ao realismo. Na primeira fase da sua carreira, produziu obras com influência romântica. O realismo aparece nas narrativas da segunda fase. Na terceira e última, Eça apresenta textos mais imaginativos, testando os limites do estilo literário.
“O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio” são duas de suas obras mais importantes. Com temática crítica, o autor causou polêmica na sociedade portuguesa da época e foi condenado pela Igreja Católica.
Eça de Queirós trabalhou como jornalista, como muitos autores do período, advogado e cônsul. Mas ficou mais conhecido pela atuação na literatura. Os textos do autor apresentam o nascimento do realismo português e são objeto de análise até hoje.
O escritor português escreveu os primeiros textos com características românticas. A segunda fase, no entanto, foi marcada pelo realismo. Eça de Queirós foi um dos responsáveis pelo início do realismo em Portugal. “O Crime do Padre Amaro” é uma obra representativa do movimento literário.
Apresenta uma visão mais crítica da sociedade, diferente do romantismo que precedeu o movimento. Eça de Queirós fugiu do estilo clássico de escrita, apostando em uma maior liberdade na elaboração do texto. 
Entre as principais obras, vale destacar “O Primo Basílio”, “Os Maias” e “As Cidades e as Serras”.
Filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, Eça de Queirós nasceu em Portugal. José Maria Teixeira de Queirós e Carolina Augusta Pereira d’Eça só se casaram quando o escritor estava com quase quatro anos. Devido à posição social superior da mãe, a família não aceitava a união. 

Nascido em Póvoa do Varzim, Eça de Queirós ingressou em 1861 na Universidade de Coimbra. Envolvendo-se com Antero de Quental e seu grupo, participa ativamente da implantação do realismo em Portugal. Formado, advoga e escreve para jornais. Em 1869 assiste à inauguração do Canal de Suez. Em 1872 ingressa no corpo diplomático, passando a trabalhar, como cônsul, fora de Portugal. Primeiro vai servir em Havana, Cuba, depois na Ing;aterra e, finalmente, em Paris, onde morre em 1900. Morreu aos 55 anos, deixando uma das mais importantes obras de toda a literatura luso-brasileira.

                                                                     *****

                                                                SINOPSE I

Após a morte do pároco José Miguéis, foi transferido para Leiria um padre jovem chamado Amaro Vieira. Aconselhado pelo cônego Dias, seu mestre de moral no seminário, Amaro foi instalar-se na casa da D. Joaneira. À noite na casa, havia encontros entre beatos e o clero, marcados por jantares, músicas, conversas, jogos e discussões sobre fé. É nesse cenário que padre Amaro encanta-se por Amélia, uma jovem muito bonita e passam a trocar olhares, despertando o ciúme de João Eduardo, noivo da moça.
O narrador, através de uma retrospectiva, conta que Amaro ingressou no seminário aos 15 anos, por obediência a sua tia que lhe criara com os preceitos cristãos. Porém, não era esse o seu desejo. Desejava mesmo era estar com uma mulher, chegando até associar a imagem de Nossa Senhora a uma, sentindo desejo por ela. Sendo assim, não por vocação e mais por comodismo, Amaro tornara-se padre. Em Leiria, rezava missas por costume, mas seu pensamento e sua ocupação era Amélia.
O primeiro contato físico entre o casal aconteceu numa fazenda da família; Amaro beijou o pescoço de Amélia, e ela saiu correndo. Amaro, com receio de se envolver mais intimamente e todos descobrirem, resolveu se mudar para outra casa. Enciumado pelas visitas de padre Amaro, o então noivo de Amélia escreveu o comunicado “Os modernos fariseus”, onde fez várias acusações contra os padres, inclusive mencionou que o padre Amaro estaria se envolvendo com uma “donzela inexperiente”. Após isso, o pároco aconselhou que Amélia desfizesse seu noivado, pois João Eduardo não seria digno. João Eduardo fica sem emprego e, revoltado, dá um soco no jovem padre.
Amaro volta a frequentar as reuniões na casa de D. Joaneira e se aproximar de Amélia, sem os olhos enciumados de João Eduardo. Numa oportunidade, voltando de uma visita à casa do cônego que estava doente, os dois param na casa do padre e tem ali sua primeira noite de amor. Dionísia, criada, aconselha ao padre a se encontrar com a jovem na casa do sineiro, onde seria mais discreto. Para o sineiro Tio Esguelhas, Amaro disse que Amélia queria se tornar freira e que ele iria ajuda-la nessa missão. Para a família, Amélia iria ajudar a Totó nas lições religiosas. Os dois passam então a se encontrar várias vezes na semana. Ela começa a sentir-se culpada, mas não recusa o padre. Amélia acaba ficando grávida. Aconselhado pelo cônego, a primeira saída seria casa-la com João Eduardo. Este, porém, tinha vindo para o Brasil. A alternativa é então mandar Amélia junto a D. Josefa, que estava doente, ao interior até chegar a hora do parto. Quando a hora chegou, Amaro entregou a criança a uma família que tem a fama de matar as crianças que lhe são entregues. E a criança realmente morre. Amélia não suporta ficar longe do filho, acaba também por morrer. Padre Amaro, sem saber o que fazer e tentando fugir dos acontecimentos, muda-se da cidade. Depois de algum tempo, encontra-se casualmente com o cônego Dias e afirma que “tudo passa”.

                                             

                                                             SINOPSE II

Por decisão da marquesa que o educara na infância, Amaro seria padre. Dois anos antes de ir para o seminário, ele passou a morar na casa de um tio pobre, que o punha para trabalhar. O período sofrido na casa do tio o animou a ingressar no seminário, ainda que fosse somente para ficar livre daquela vida. Às vésperas, porém, de mudar-se para o seminário, já não estimava tanto a idéia: tinha vontade de estar com as mulheres, de abraçar alguém, de não se sentir só. Julgava-se infeliz e pensava em matar-se. Às escondidas, na companhia de colegas, fumava cigarros. Emagrecia, andava meio amarelo. Começava a sentir desânimo pela vida de padre, porque não poderia casar-se.
No seminário, isolados da cidade e da convivência com estranhos, Amaro e seus colegas, na maioria não vocacionados para o sacerdócio, viviam tristemente. Amaro não deixara muita lembrança boa para trás. Mesmo assim, tinha saudades dos passeios, da volta da escola, das vitrines das lojas, onde parava para apreciar a nudez das bonecas.   
Amaro não desejava nada, mas, influenciado pelos que queriam até fugir do seminário, ficava nervoso, perdia o sono e desejava as mulheres. A disciplina do seminário deu-lhe hábitos maquinais; interiormente, porém, os desejos sensuais moviam-se como um ninho de serpentes. Logo depois de ordenado padre, Amaro ficou sabendo que a marquesa havia morrido e não deixara herança nenhuma para ele. Foi nomeado para Feirão, região muito pobre, de pastores, quase desabitada. Ficou lá um tempo, cheio de tédio. Indo a Lisboa, procurou a Condessa de Ribamar, uma das filhas da marquesa que o educara. Ela lhe prometeu interceder por ele junto a ministro amigo do conde, seu marido. Uma semana depois, Amaro estava nomeado para Leiria, sede de bispado, apesar de ser padre novo – o ministro intercedera junto ao bispo.
Orientado pelo Côn. Dias, o novo pároco foi morar na casa da S. Joaneira, contrariando a opinião do coadjutor – padre auxiliar, pessoa de respeito mas sem influência – o qual havia ponderado que isso seria imprudente por causa de Amélia, poderia haver comentários maliciosos. O quarto do Pe. Amaro ficava no térreo, exatamente embaixo do quarto de Amélia, cuja movimentação ele podia ouvir nitidamente.
Na noite do primeiro dia de Amaro na casa da S. Joaneira, ela reuniu algumas velhas, João Eduardo e o Cônego Dias. Jogaram o lote. Por coincidência, Amaro e Amélia, sentados lado a lado, quinaram. O jovem padre ficou impressionado com a moça. Depois que todos saíram e os   de casa se deitaram, Amaro foi buscar água na cozinha e viu Amélia de camisola. Ela se escondeu, mas não o censurou. No quarto, nervoso, atormentado pela visão de Amélia, Amaro não conseguiu rezar nem dormir. 
Amélia também não dormiu logo e ficou recordando sua vida. Não chegou a conhecer o pai, militar, que morreu novo. Com 15 anos de idade, ela teve a primeira experiência de ser amada e de amar, quando passou umas férias na praia. Na véspera de o rapaz partir, ele a beijou sofregamente, às escondidas. Algum tempo depois, já em Leiria, ela soube que ele ia se casar com outra. Triste e acreditando não voltar mais a ter alegria, Amélia tornou-se uma beata e pensou em se fazer freira. Por esse tempo, o Côn. Dias e sua irmã Josefa começaram a freqüentar a casa em que Amélia morava. Falava-se muito da ligação do cônego com a mãe dela. Aos 23 anos,  a moça conheceu João Eduardo, que chegou a falar em casamento, mas ela quis esperar até que o rapaz obtivesse o lugar de amanuense, a ele prometido.
Amaro estava se sentindo bem em sua rotina: celebrava a missa cedo para um grupo de devotas; à tarde e à noite deliciava-se na companhia doméstica da S. Joaneira e sobretudo de Amélia. Atraídos um pelo outro, estavam liberando os sentimentos. Na presença do noivo, porém, a moça nem olhava para o padre, o que lhe causava ciúmes.
Numa tarde, Amaro chegou sem ser esperado e flagrou o Cônego Dias na cama com a S. Joaneira. Ficou surpreso e saiu sem ser notado. Em contato com outros padres,  ficou sabendo que eles tinham casos com mulheres.
Aos poucos, Amaro e Amélia começaram a demonstrar, um para o outro, seu envolvimento emocional. Ela se tornou totalmente apaixonada: acompanhava-o com os olhos sempre e, quando ele não estava em casa, ia ao quarto dele, colecionava os fios de cabelo que tinham ficado no pente, beijava o travesseiro. Tinha ciúmes dele ao saber que alguma mulher o escolhera como confessor.
Amedrontado com a evolução de seus sentimentos e temendo se deixar dominar pela paixão, Amaro pediu ao Cônego Dias que lhe arrumasse outra moradia, onde vivesse sozinho. Assim se fez.
Por sua vez, Amélia se sentia desconsolada pelo afastamento de Amaro. Depois de algum tempo, ele voltou a freqüentar a casa da S. Joaneira. Os dois não estavam conseguindo mais esconder a paixão recíproca. Enciumado, João Eduardo tentou apressar o casamento. Amélia estava enfastiada dele, mas tentou fingir-se apaixonada, para evitar escândalo. Mesmo assim, a paixão pelo padre falava mais forte.
Certa noite, indignado por ver Amaro segredar algo no ouvido de Amélia, João Eduardo redigiu e fez publicar no jornal de Leiria um artigo: “Os modernos fariseus”, no qual ele contava as imoralidades de alguns padres da cidade, inclusive do Cônego Dias e do Pe. Amaro, a quem chamou de sedutor de donzelas inexperientes. Os padres mencionados se enfureceram e passaram a investigar quem seria o autor.

                                   

Abalada com as possíveis repercussões do artigo e magoada com o que ela achou covardia de Amaro (depois do artigo ele sumiu da casa dela), Amélia aceitou marcar o casamento com João Eduardo.
De fato, Amaro se retraíra. Seus sentimentos estavam confusos; não teria mesmo coragem de assumir o amor de Amélia e abandonar o sacerdócio, mas crescia sua raiva contra João Eduardo.
Através da confissão da mulher do responsável pelo jornal, os padres vieram a saber quem havia redigido o artigo maldito. A vingança foi cruel: João Eduardo perdeu o emprego, por influência deles. Ao contar para Amélia quem fora o articulista, Amaro afirmou que não deixaria, em nome de Deus, que ela se casasse com um ateu. Ao dizer isso, pela primeira vez os dois se beijaram com paixão.
A moça desfez o noivado. Desolado, João Eduardo procurou apoio e não recebeu: ninguém queria manifestar-se claramente contra o clero. Certa noite, completamente embriagado, o rapaz passou por Amaro na rua e deu-lhe um soco, sem feri-lo gravemente. Armou-se uma enorme confusão. A polícia levou João Eduardo para a Administração. No entanto, atendendo a um pedido do Pe. Amaro, o administrador retirou a ocorrência. Na reunião da noite na  casa da S. Joaneira, o jovem padre foi considerado um santo. A atração de Amélia por ele aumentou e o desejo de Amaro  por ela também.
 A empregada do Pe. Amaro ficou doente e foi substituída pela irmã, Dionísia, famosa por ser alcoviteira. Essa contratação contrariou a opinião das beatas que achavam conveniente o padre voltar para a casa da S. Joaneira. Ele quis continuar só, sem deixar, é claro, de freqüentar as reuniões noturnas junto de Amélia.
Um dia, voltando os dois sozinhos, sob forte chuva, da casa do Cônego Dias, que passara mal, Amaro levou Amélia para a casa dele, enquanto esperavam o tempo melhorar. Por meia hora, o padre dispensou Dionísia. Naquele momento, os dois apaixonados tiveram sua primeira relação sexual. 
No dia seguinte, Dionísia falou ao padre que era perigoso a moça ir lá daquele jeito. Insinuando-se como protetora da união dos dois, sugeriu que se encontrassem na casa do sineiro, o tio Esguelhas, ao lado da igreja. Relutante a princípio, Amaro aceitou e até gratificou a empregada com meia libra. Tio Esguelhas, viúvo e sem uma perna, morava naquela casa com uma filha paralítica, Antônia, que ele chamava de Totó. Inteligentemente, o padre convenceu o sineiro da seguinte história: Amélia queria ser freira – o que devia ser mantido em segredo – e aquela casa era o lugar ideal para ele conversar com a moça, orientá-la espiritualmente, longe dos olhos de todos.
Amélia concordou com o plano. Para a família e para os amigos, contudo, ela iria uma ou duas vezes por semana à casa do sineiro para ensinar leitura e religião à Totó. Isso seria sigiloso por se tratar de um ato de caridade, que não deveria ser divulgado para não favorecer a vaidade.
Assim, Amaro e Amélia passaram a se encontrar regularmente na maior discrição. A paralítica, sentindo-se alvo de atenções, apaixonou-se pelo padre, sem o declarar, evidentemente; com a mesma intensidade, odiava Amélia. Esta dava um pouquinho de atenção à doente e depois ia se deitar com o padre no quarto de cima, do pai, que naquela hora sagrada saía de casa. Amaro ia direto para o quarto, nem olhava para Totó.
Aquele foi o período mais feliz da vida de Amaro. Ele se achava na graça de Deus. Tudo dava certo. Amélia cada vez mais se tornava cativa dele. Nada lhe interessava a não ser Amaro. Ele, por sua vez, afirmava crescentemente sua dominação. Compensava com ela toda a subserviência do passado. Ciumento, procurava controlar até os pensamentos da moça. Amélia se entregava inteiramente a esse domínio. E ninguém parecia estar notando tudo isso; pelo menos, não havia qualquer insinuação.
Uma circunstância inesperada veio estragar aquelas manhãs na casa do sineiro: Totó agora não suportava Amélia. Quando ela chegava, Totó parecia ter um surto de fúria. Tanto que Amélia deixou de vê-la, subia direto para o quarto com Amaro. Mas foi pior; assim que a doente percebia que os dois haviam passado, começava a gritar: “Estão a pegar-se os cães!” A partir de então, Amélia começou a ter crises de remorso. Nos braços de Amaro, esquecia tudo; mas, depois, a crise lhe vinha.
A S. Joaneira pediu que o cônego verificasse o que estava acontecendo com a filha que, à noite principalmente, tinha surtos de nervosismo, empalidecia, gritava... Dias ficou de espreita e acompanhou Amélia, sem se fazer notar, até a casa do sineiro. Pelas palavras de Totó, percebeu o que estava acontecendo.  Depois que Amélia saiu, conversou com a paralítica e se certificou de tudo. Indignado, procurou Amaro na sacristia e o censurou com violência. No final, reconciliados, fizeram um pacto de silêncio. O cônego chegou a elogiar Amaro pela escolha da devota mais bonita de Leiria. Os dois concordaram: “é o  melhor que se leva desta vida!”

                                              

A partir de então, Amaro ficou tranqüilo. Chegava a chamar o cônego de sogro. Insistia em que Amélia andasse bonita, para saborear intimamente o prazer da conquista. A moça, entretanto, depois de um início de total submissão, passou a ter consciência crítica: era concubina de um padre! Temia, então, o castigo de Deus. Amaro se enervava com estes escrúpulos e a censurava.
Amélia ficou grávida. Já no primeiro mês, a gravidez foi detectada. Amaro entrou em pânico. Foi pedir a ajuda do Cônego Dias. A solução seria casar a moça com João Eduardo o mais depressa possível. Amaro convenceu Amélia a casar-se com o ex-noivo. Ela, a princípio, revoltou-se com ele, vendo-se objeto na sua mão. Mas acabou aceitando a idéia; Amaro é que ficou enciumado com a situação que ele próprio criara. Os dois combinaram que continuariam amantes após o casamento, o que acalmou os ciúmes do padre.
Tudo daria certo se João Eduardo, depois de tudo o que aconteceu, não tivesse ido para o Brasil, em lugar ignorado. Ele só foi descoberto quando a gravidez atingiu o terceiro mês! E nada estava resolvido, para desespero dos padres.
Nessa ocasião, D. Josefa ficou doente. Para se restabelecer, aconselharam-na a ir passar um temporada na roça. Amaro teve, então, uma idéia brilhante.
Enquanto o Cônego Dias e a S. Joaneira iriam para a praia, Amélia ficaria na propriedade rural do Cônego Dias,  na Ricoça, região vizinha a Leiria, acompanhando D. Josefa em sua convalescença.  Para que a irmã do cônego aceitasse a moça com ela, Pe. Amaro lhe segredou – e pediu sigilo – que Amélia fora engravidada por um homem casado. Para evitar escândalo, a moça daria à luz no período em que estivesse na roça sob a proteção de D. Josefa.
Amaro, solitário em Leiria, se enfastiava da monotonia. Ocioso, as ocupações do sacerdócio o aborreciam ainda mais. Abandonou todas as orações e meditações pessoais. Amélia na Ricoça sofria muito. D. Josefa a desprezava por ser uma pecadora.
Amaro foi visitá-la algumas vezes. Sabendo da confissão que Amélia fizera com um abade, enciumou-se, ficou furioso e evitava conversar com ela. Arrependido e mais apaixonado ainda, escreveu-lhe uma carta. A resposta da moça, entregue por um rapazinho, foi: “Peço-lhe que me deixe em paz com meus pecados.” Amaro chegou a desconfiar de que ela estivesse de “homem novo”. Mas não desistiu, continuou as visitas freqüentes;  a moça evitava vê-lo.
Quem reapareceu morando perto da Ricoça foi João Eduardo. Permanecia apaixonado por Amélia. Ficou conhecido do abade Ferrão, que simpatizou com ele e teve a idéia de fazê-lo casar-se com Amélia, a qual também o via com bons olhos.

                              

Várias vezes, quando retornou da praia, visitou D. Josefa e se retirou sem nem olhar para Amélia. Numa dessas visitas, ela não agüentou mais: cercou-o, impediu-o de sair sem lhe dar satisfação. Estavam sós e acabaram indo para a cama. Combinaram encontrar-se à noite. Amaro foi, mas os cães latiram e o afugentaram.
O padre sondou de Dionísia a indicação de uma ama para ficar com a criança logo após o nascimento. Havia duas possíveis: uma seria a aconselhável pelo bom senso; a outra, Carlota, era uma “tecedeira de anjos”, pois matava os recém-nascidos. Ele saiu para procurar a primeira; como dispunha de tempo, contudo, foi conhecer Carlota e resolveu optar por esta (seria mais conveniente que a criança desaparecesse).
Amélia estava em permanente sobressalto, à medida que se aproximava o dia do parto: às vezes, queria o filho; outras vezes, se horrorizava, tinha pressentimentos ruins. Uma idéia passou a animá-la: casar-se com João Eduardo e, quem sabe, conseguir que ele aceitasse a criança. Pediu ao abade Ferrão que realizasse esse seu desejo.
Chegou o momento do parto. Amélia foi assistida por Dionísia e pelo Dr. Gouveia, velho e discreto médico, que cuidava de D. Josefa. O menino nasceu bem. Dionísia o entregou ao Pe. Amaro, que aguardava fora de casa e o levou para Carlota, recomendando que o mantivesse vivo,  já arrependido de não ter contratado a outra ama. Em seguida, o padre voltou para Leiria, certo de que tudo correra bem com a amante. Na verdade, entretanto, Amélia, depois de dar à luz,  teve convulsões e, apesar do esforço intenso do médico e de  Dionísia para salvá-la, não resistiu, morreu, deixando desolado o abade Ferrão.
Na manhã seguinte, Amaro teve um choque enorme ao saber da morte através de Dionísia. Passado o primeiro impacto,  partiu imediatamente em busca de Carlota, na esperança de tirar o filho da guarda dela e levá-lo para a outra ama. Infelizmente, a criança já havia morrido.
Completamente desnorteado, o Pe. Amaro resolveu sair de Leiria.
Amélia foi enterrada na Ricoça, enterro oficiado pelo abade Ferrão, com acompanhamento de algumas pessoas do lugar e de João Eduardo, que chorou muito aquela morte.
Pe. Amaro foi removido de Leiria e passou muito tempo sem ver ninguém de lá. Certa feita,  encontraram-se casualmente no Largo do Loreto, em Lisboa, junto à estátua de Camões, o Cônego Dias e o Pe. Amaro. Este estava procurando transferência para uma boa paróquia e procurava a influência do Conde de Ribamar. 

LEIRIA, NA 2ª METADE DO SÉCULO XIX
                

 Os dois padres conversaram sobre Leiria, onde o cônego ainda morava. Amaro lhe disse que as primeiras sensações após a morte de Amélia – remorso, tristeza, depressão... – estavam superadas definitivamente. “Tudo passa”, disse e o cônego confirmou: “Tudo passa”.
A eles juntou-se o Conde de Ribamar. Os três comentaram o horror da situação: estava-se nos fins de maio de 1872 e em Lisboa havia alvoroço com as notícias vindas da França, do massacre da Comuna de Paris, quando foram mortos pelo governo francês, em uma semana, cerca de 25.000 operários rebeldes. O  Conde de Ribamar deu uma lição de  política aos dois padres que ouviam e apoiavam seu discurso inflamado contra os rebeldes e elogioso a Portugal que mantinha a ordem e a paz: “Meus senhores,  não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento,  gozavam de cabeça alta essa certeza gloriosa da grandeza do seu país – ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta,  ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopéia sobre o coração, a espada firme, cercado de cronistas e dos  poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida!

                                     Personagens

Amaro - protagonista do romance. Um jovem padre, bonito, mesmo um pouco curvado, de olhos negros, ambicioso. Tornou-se sacerdote sem ter a vocação para isso. Via maus exemplos de outros padres e deixando de lado seus escrúpulos, começou a agir como muitos dos seus colegas.

Amélia - filha da sra. Augusta Caminha. Jovem bonita, de pela alva e olhos muito negros.

João Eduardo - sujeito alto, bigodes que caem nos cantos da boca. É escrevente e nutri por Amélia uma paixão desmedida.

Cônego Dias - padre idoso, rico, influente, morador de Leiria, conselheiro e confidente do Pe. Amaro, de quem tinha sido professor de Moral no seminário; amante não declarado de D. Augusta Caminha, conhecida como S. Joaneira.

S. Joaneira - mãe de Amélia, chamada Augusta Carmina. Era chamada assim por ser nascida em São João da Foz.

D. Maria da Conceição - viúva rica. Tinha no queixo um sinal cheio de cabelos e quando sorria mostrava grandes dentes esverdeados.

D. Josefa - solteirona, irmã do Cônego Dias, com quem morava.

D. Maria Assunção -  beata rica.

Conde de Ribamar - pessoa influente junto ao governo, casado com uma das filhas da marquesa que criou Amaro.

Libaninho - beato fofoqueiro, efeminado.

As senhoras Gansosos - duas irmãs, chamadas Joaquina e Ana. Joaquina era a mais velha, muito magra, de olhos muito vivos. A sra. Ana era muito surda, Nunca falava. Tinha muita habilidade em recortar papéis para caixas de doce.

                                           

                              ANÁLISE DA OBRA

Primeiramente é necessário deixar uma coisa bem clara, esta análise e as sinopses acima referem-se ao livro de Eça de Queiroz, escrito em 1876, em nenhum momento quero associar a obra do escritor português aos filmes que posteriormente encenaram sobre a obra, os quais, são uma afronta descabida ao brilhantismo e esmero com que Eça de Queiroz concretizou o livro. Mas façamos a princípio, uma abordagem mais técnica. O narrador da obra é pronunciado em terceira pessoa e onisciente, ele conhece o sentimento e as ações das personagens em seu íntimo de acordo com os acontecimentos. O narrador chega até a impor qualidades ao clero e às beatas através de adjetivos muitas vezes rudes, como é o caso de Ruça, que era denominada pelo narrador como “idiota”.

Lembrando sempre que O Crime do Padre Amaro é, realisticamente, um romance de tese, não se se baseia em discutir questões pessoais e amores subjetivos, a obra põe em questão discussões políticas e sociais, como o atrelamento entre os interesses do clero e o envolvimento político. Por exemplo, Amaro conseguiu a transferência para Leiria por indicação da condessa de Ribamar, filha da senhora que cuidou dele quando criança. A obra, influenciada também pelo naturalismo, revela que os modelos comportamentais são justificados em sua maior parte pelo meio. Assim, todo comportamento tem um motivo. Padre Amaro, ao se deixar levar por desejos carnais e quebrar o celibato, estava correspondendo ao meio em que vive, já que descobriu que seu antigo mestre também tinha um caso secreto. Além disso, o instinto sexual era algo intrínseco ao ser humano, logo, pertencente também aos padres.

                                              

Na segunda metade do século XIX, Portugal passava por grandes transformações; não apenas sociais, mas também filosóficas. Eça teve assim uma grande influência do positivismo de Comte. No literário, o social passa a ser discutido, analisado, deixando de lado a visão romântica voltada para o eu. O principal, agora, passa a ser a discussão dos problemas sociais.
 Amaro não é visto como um culpado, mas, como um sujeito que não possui escolhas.  Ele não teve escolha em relação à entrada no seminário; era um pedido, senão uma ordem, de sua tia. Respondendo aos seus instintos que desde criança já afloravam juntos a suas amas de criação e que perpetuava até no seminário, ele não tinha alternativa a não ser se envolver com uma jovem tão bonita como Amélia. Ele é sujeito do meio em que vive. Quando Amaro entrega a criança a uma “tecedeira de anjos”, sabendo que a criança tinha muitas chances de morrer, ele não tinha outra escolha, pois o fruto do seu pecado, era a prova do escândalo e de sua queda, segundo sua visão. Mesmo após se arrepender e tentar recuperar a criança retornando à casa, ao se deparar que tudo já estava feito.
 
Não há personagens livres da crítica ferina de Eça de Queirós, tanto no meio eclesiástico quanto no círculo de "amizades" e "devotas" que rodeia os padres. Quase todos os personagens são apresentados de forma sarcástica, irônica e crítica, sendo raras as exceções, principalmente o ambiente de igreja, sacristia e casa de beatas. O autor ataca violentamente os vícios da sociedade da época e denuncia a hipocrisia burguesa e os abusos do clero. Há três versões do romance: a primeira foi escrita em 1871, a segunda, em 1876 e a terceira e definitiva, entre 1878 e 1880. Elaborado durante a fase realista da produção literária de seu autor.
No Realismo, o lado prosaico da vida passa a ser tema da literatura. Porque a meta era retratar a sociedade contemporânea, os personagens são, em maioria, tipos concretos, comuns e não idealizados. Seus atos são determinados por causas de origem biológica ou social (lei da causalidade). Daí, serem destacados a dimensão animal, as satisfações das necessidades instintivas e materiais e os condicionamentos hereditários, que determinam o seu comportamento. Sua descrição é detalhada, a fim de representar a realidade da forma o mais exata possível e fornecer os elementos da observação para que se possa compreender o que ocorrerá no desenvolvimento da narrativa.

                                                

Calcado na concepção determinista da existência humana, sobre a qual se fundamentou o movimento realista, o narrador apresenta os aspectos que conduzem às deformidades morais do protagonista, pintando um retrato de Amaro que se estrutura a partir de sua origem humilde, de sua fragilidade física e, principalmente, de sua fraqueza de caráter, que o faz aceitar resignadamente um destino que não escolhera. Para lembrar Geralmente, os romances realistas privilegiam os elementos da narrativa que permitem demonstrar teses sociais. Assim, é frequente o narrador dedicar-se à descrição dos ambientes que condicionam a ação dos personagens e determinam o desenvolvimento do enredo, bem como destacar dos personagens aqueles aspectos que se encaixam nos preceitos da escola literária. A voz do personagem Embora, por vezes, a onipresença do narrador assegure a adoção do estilo indireto como meio de transmissão da fala ou do pensamento dos personagens do romance, ela não exclui a presença das demais modalidades discursivas.  Procurando representar a espontaneidade da linguagem oral, a narrativa abre espaço para o discurso direto, permitindo ao leitor apreender as características psicológicas dos personagens por meio da expressão e do conteúdo dos diálogos travados entre eles.  Quanto ao emprego do estilo indireto livre ou semi-indireto, essa técnica narrativa ganha importância fundamental no Realismo a partir de Gustave Flaubert e Émile Zola e merece posição de destaque no romance O Crime do Padre Amaro. 

 Na obra, Eça de Queirós parece enxergar no uso do discurso indireto livre algumas vantagens estruturais que não se restringem à simples reprodução do monólogo mental dos personagens e, por isso, não devem ser negligenciadas. Esse estilo discursivo livre abre mão de recursos gramaticais como o verbo dicendi e as conjunções integrantes que ou se, que privam a expressão literária da vivacidade emotiva da língua falada. Sua utilização alivia a monotonia do diálogo paralelístico e ameniza a complexidade que, geralmente, caracteriza os monólogos mentais. Leia o trecho a seguir:  "O Padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas para a extrema-unção, o demônio ali mesmo, zás trás, apoderava-se delas! Como se pode notar, a construção adquire o movimento da fala. A ausência de um verbo dicendi, a utilização de formas verbais no imperfeito do indicativo e a exclamação que finaliza o período impessoalizam a narração, deixando para o leitor a dúvida de não saber quem está se pronunciando - se é o autor quem imita a voz do personagem ou se é o próprio personagem que fala.  O homem é produto do meio Em O Crime do Padre Amaro é comum a descrição minuciosa dos meios sociais, por meio da qual o narrador visa reconstituir os ambientes freqüentados pelos personagens, os quais, portanto, explicam a sua natureza.  Quando o narrador descreve Leiria – cidade onde se desenrola a narrativa – a partir do provincianismo de seus habitantes, acaba atribuindo a esse ambiente uma função complementar daquela exercida por seus moradores.  Desse modo, fica mais fácil entender a intenção do narrador quando ele se detém na descrição de aspectos da cidade que demonstram a monotonia de um povo desprovido de interesses e na caracterização de ambientes cujos traços derivam das personagens que os habitam.  Sob esse ângulo, é essencial o estudo detalhado de personagens secundárias: integrantes dos círculos de amizade dos protagonistas, elas constituem o clima sociocultural e moral da narrativa, uma vez que os vícios dos clérigos, colegas de Amaro, e a mesquinhez das beatas, frequentadoras da casa de Amélia, são apontados pelo narrador como os verdadeiros causadores da degradação moral dos protagonistas.

Leiria - Portugal, hoje

Observe o seguinte excerto: "...enquanto D. Maria da Assunção vinha palrando com o moço da Quinta, que segurava a arreata." Eça emprega aí a ordem direta, pondo o sujeito antes do verbo, e contraria a inversão da frase, com a colocação do sujeito após o verbo, procedimento sintático comum na literatura romântica da época. Essa subversão devia-se não só à influência exercida pela literatura estrangeira sobre sua criação mas sobretudo à adesão do autor a um movimento de reação contra as antigas normas da prosa literária iniciado na França no século XIX. A palavra Quanto ao uso das classes gramaticais, o autor privilegia a duplicidade dos adjetivos. O par de atributos, além da intenção rítmica, atende a exigências de cunho psicológico, quando apresenta os lados objetivo e subjetivo dos termos (pessoas ou coisas) por ele caracterizados:  "O pároco era um homem sanguíneo e nutrido..." "...esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura..."  "Conservava-se direita e cerimoniosa..."  "..a voz fina e fresca agradava ao senhor chantre..." "Imaginava já boa vida escandalosa e regalada..." "Mas era a mudez , obstinada e rancorosa, que os incomodava sobretudo."  "Nos seus beiços havia um vermelho quente e úmido..." O efeito dessa duplicidade acentua-se quando uma locução prepositiva substitui um dos adjetivos. O impacto fica por conta da assimetria e da disjunção:  "Era uma criaturinha mirrada, de linhas aduncas..." Nesse sentido, ainda é válido destacar a combinação de adjetivos opostos:  "Era um gozo pequeno, extremamente gordo – que tinha vagas semelhanças com o pároco." No texto, o emprego de atributos de sentidos opostos denuncia uma realidade íntima que, aos olhos do narrador, deixa-se encobrir pelas aparências. Nesse âmbito, os adjetivos antagônicos tentam exprimir e evidenciar uma percepção que é simulada e real ao mesmo tempo.

O Padre Amaro Vieira

O protagonista do romance era filho de dois criados do marquês de Alegros. Perde os pais ainda criança e é educado no meio da criadagem da marquesa, o que faz com se torne "enredador. Muito mentiroso." A marquesa decide que se ele tornaria padre, e assim, aos quinze anos, é mandado ao seminário.
É um fraco tanto física quanto psicologicamente. Aceita o sacerdócio passivamente. Por influência do conde de Ribamar, obtém a paróquia de Leiria, onde se hospeda na casa da S. Joaneira. Lá conhece Amélia, filha de sua hospedeira, e ela torna-se sua amante. O ambiente da casa da marquesa, onde fora criado, e o seminário moldaram o caráter de Amaro. Já sacerdote em Leiria, espanta-se, no início, com o cinismo explícito dos seus colegas de batina, mas todas essas situações, somadas ao ambiente de servilismo beato da casa onde está hospedado, fazem com que ele se atole em ações desonrosas, como entregar seu filho a uma "tecedeira de anjos" e a criança acaba por morrer. No final do romance, ele tornou-se idêntico aos seus pares. Uma conversa entre Amaro e o cônego Dias, mostra, de forma clara, como Amaro e os outros eclesiásticos representam o clero sem vocação e hipócrita. Os dois estão refletindo sobre os excessos da Comuna, afirmam que seus seguidores merecem a masmorra e a forca porque não respeitam o clero e "destroem no povo a veneração pelo sacerdócio", caluniando a Igreja. Então, uma mulher provocante passa diante deles e ambos trocam olhares cúmplices. O cônego exclama: "- Hem, seu Padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar" E Amaro responde: " - Já lá vai o tempo, padre-mestre - disse o pároco rindo - já as não confesso senão casadas!"

Amélia Caminha

A co-protagonista do romance concentra, em sua figura, o resultado trágico de uma formação num meio provinciano e atrasado, centrado em torno do poder eclesiástico. A sua casa é um beatério, centro de convivência dos poderosos e amorais sacerdotes da cidade, em que impera a superficialidade dos rituais e uma deformação dos conceitos religiosos cristãos. Nesta sociedade, a Igreja é parte ativa do poder político, que a utiliza nas suas manobras eleitoreiras e lhe dá privilégios sociais, prestígio e poder.
Amélia vive, portanto, rodeada de cônegos e padres. Aos 23 anos, alta, forte e "muito desejada", possui um temperamento sentimental, romântico e fortemente sensual. Órfã de pai, sua mãe é amante do cônego Dias e ela é uma devota simplória e passiva, atraída pelo ritual católico. Namora João Eduardo, escrevente de cartório. Conhece, então, o Padre Amaro, pároco da Sé de Leiria, hóspede na casa de sua mãe. Apaixona-se e entrega-se a ele com total submissão. Fica grávida e esconde-se numa quinta próxima à cidade, acompanhada de uma fanática beata, irmã do cônego Dias. Recebe a visita do abade Ferrão, único sacerdote decente do romance. Ele tenta recuperá-la para uma vida normal e digna e quer tirá-la da influência nefasta de Amaro. No entanto, Amélia morre no parto.

                               Personagens secundárias

O narrador do romance, na terceira pessoa, apresenta as personagens secundárias com grande dose de ironia e uma certa antipatia. Como bem o colocou Benjami Abdala Jr:
“Fica muito clara a antipatia do narrador pelo círculo de amigos da S. Joaneira (Maria Assunção, Josefa Dias, Joaquina Gansoso e o beato homossexual Libaninho). O mesmo ocorre em relação aos colegas de Amaro (cônego Dias, padre Natário e padre Brito), pois o narrador parece convencido antecipadamente de seus vícios e grosseirias. O único religioso que se exclui desse círculo é o abade Ferrão, apresentado como uma personagem coerente com seus ideais. A ironia do narrador não é restrita aos religiosos, estendendo-se para o contexto social de Leiria.
Várias personagens são apresentadas de forma sarcástica: o jornalista Agostinho Pinheiro; o venal Gouveia Ledesma, o burguês reacionário Carlos. Nesse ambiente, João Eduardo, noivo de Amélia, enciumado com as atenções da moça ao padre Amaro, escreveu um anônimo “Comunicado” na Voz do Distrito, criticando a convivência de padres com amantes. Rompe-se o noivado: Amélia trona-se amante do padre Amaro.”
Enfim, temos a efetivação de O Crime do Padre Amaro, e mesmo sendo uma obra de viés realista/naturalista, o leitor se vê envolvido emocionalmente no enredo...
Decidi colocar duas sinopses do livro, compreendidos a partir da visão de duas pessoas diferentes, não quero citar nomes, mas sim fazer uma análise sobre a forma com que dois leitores entenderam a obra, portanto, as sinopses não são minhas, escolhi duas, propositadamente, uma breve e simples, outra prolixa e detalhista. Mas o que eu quero analisar? Simples, a forma ingênua com estas duas sinopses compreenderam a dinâmica da obra. Eu diria que não foi bem assim....duas coisas ficam claras ao leitor: o egoísmo e o amor de Amaro, sim, amor, ele, ao seu jeito, amava, desejava Amélia, e o único empecilho a este amor foi a negra batina que usava, ao seu modo, ele sofreu por ela, lamentou sua angústia, e mesmo num último momento, se arrependeu de seus desejos comodistas da vida sacerdotal, imaginando-se ficar ao lado de Amélia e do filho, e mesmo depois da morte de Amélia, concebendo a ideia de criar seu filho como sobrinho em algum lugar distante.

                                           

Acredito que um dos maiores desafios da obra é a compreensão dos sentimentos de Amaro....ora um homem doce, amável e amigo, ora, um homem sem escrúpulos, individualista e frio. Classifiquei o grau de dificuldade desta leitura como médio, principalmente, em relação ao vocabulário e disposição dos parágrafos, não é um livro fácil, por vezes, torna-se até enfadonho, porém, é um dos mais audaciosos tratados das mazelas sociais de uma sociedade...de uma época....confesso que sofri por Amélia, impotente diante de seu trágico destino...confesso também que, tive compaixão de Amaro quando a parteira o avisa da morte de Amélia, percebe-se que seu sofrimento foi real.
Não gostei de duas coisas neste livro, a primeira, o descaso com que o escritor tratou da primeira relação sexual entre Amaro e Amélia, poxa, algo que foi a causa e a finalidade de todos os acontecimentos entre os protagonistas, não ganhou nenhum comentário, nenhuma frase de deslumbramento, principalmente, de Amélia que era virgem....mas, como o próprio nome já diz....realismo....outra coisa que não gostei foi o fato de Amaro nem ter comparecido ao enterro de Amélia, nem ao menos ter ido chorar aos pés de seu túmulo....sei que ele a amava, mas que raio de amor indiferente é este.....enfim, como eu havia dito, a complexidade dos sentimentos do Sr. Padre Amaro é nitidamente egoísta.

                               

Não assistam aos filmes que adaptaram o livro, ou tentaram adaptar neh, é extremamente prazeroso optar pela história do Sr. Eça de Queiroz

                                                          By Stela Bagwell