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sábado, 14 de novembro de 2015

A Inspiração na Literatura: Sobre Escritores, Álcool e Drogas.


Um dose de vinho, de uísque ou de absinto, teria o poder de despertar o Hemingway, o Victor Hugo ou o Edgar Allan Poe adormecido dentro de cada um de nós? O consumo de bebidas alcoólicas e diversos tipos de alucinógenos, ganharam popularidade entre escritores em meados do século XX, mas o mito de que o álcool motiva a capacidade de criação remonta o mundo antigo. Em Roma, o poeta Horácio anunciava aos quatro ventos os efeitos inspiradores que o vinho proporcionava, aos seus contemporâneos era comum ouvir-lo dizer: " Quem bebe só água não escreve bons poemas".
O sociólogo e psicanalista, Daniel Lins, da Universidade Federal do Cerá, autor de O Último copo: álcool, filosofia e literatura, explica que o alcoolismo está diretamente associado à fuga da solidão e que; " confessionário aberto a todos, o bar é a pátria do beberrão (...) nele, a escrita chora pela ponta dos dedos". Em seu livro, Lins lembra o dilema da francesa Marguerite Duras e de como a escritora, no auge de sua doença, chegou a beber oito garrafas de vinho por dia.
A maioria dos especialistas acreditam, que o álcool em quantidades moderadas, pode até estimular a inspiração e a criatividade, porém, em doses excessivas, jamais será responsável por nenhuma best-seller.
Não é novidade a ninguém que a associação entre álcool e a capacidade de criação de muitos escritores, inclusive, autores responsáveis por verdadeiras pérolas da literatura, é verídica, assim como, sabe-se que nem só de álcool vive a literatura. Pós brancos, comprimidos coloridos, cogumelos mágicos e ervas calmantes, resultaram em grandes liberações para muitos escritores, mas também, em ruína e perdição.
Por mais belos que sejam os Hinos à Noite, de Novalis no século XVIII, eles foram concebidos, gerados e nascidos sob a paternidade do ópio.
O autor de, O Poder do Silêncio, Carlos Castaneda, ficou conhecido como o guru das drogas, e, mesmo fazendo constante uso de peiote,  cacto de onde se extraí um alucinógeno, Castaneda foi um dos autores mais lidos no mundo, só no Brasil, estima-se que tenha vendido mais de 600.000 cópias de seu livro.
Carson Mccullers, autora de, O Coração é um Caçador Solitário, morreu de alcoolismo, sentada em uma cadeira, enrolada em um cobertor no convés de um navio. A Autora de, A Crítica da Razão Dialética, Annie Cohen-Solal, sempre acordava com uma xícara de café e um tablet de corydrane e, sucessivamente, esses hábitos se repetiam simultaneamente, enquanto durasse a escrita.

Assim como nunca foi surpresa para ninguém que um dos maiores filósofos da França, fosse lembrado, não apenas pelo seu, O Ser e o Nada ou A Crítica da Razão Pura, mas também, fosse frequentemente associado ao constante uso de drogas, fato que, Jean-Paul Sartre, nunca se importou em ocultar aos olhos prescrutadores da sociedade. E foi debaixo desses mesmos olhos, que um século antes, Charles Baudelaire, Theóphile Gautier, Victor Hugo, Honoré de Balzac e Alexandre Dumas, fundaram o Clube do Haxixe, no qual exerciam cargos preponderantes de catedráticos e palestrantes divulgadores de uma espécie aprimorada de maconha.
Baudelaire, foi ainda mais além, e escreveu, Paraísos Artificiais, onde fundamenta que, quando sob efeito de substâncias que alteram a percepção, o escritor tem acesso, à coisas e fatos, de forma diferente.
O talentoso, Ernest Hemingway, ganhador do Pulitzer em 53 e Nobel de Literatura em 54, autor de O Velho e o Mar, não será apenas lembrado por ter sido um correspondente na Guerra Civil Espanhola, trabalho que lhe inspirou uma de suas melhores obras, Por Quem os Sinos Dobram, mas também, como o alcoólatra desesperado com a monotonia da vida e forma trágica de como tirou a própria vida em julho de 1961.
Edgar Allan Poe e Lewis Carrolls, escreveram o nome de seus países na literatura mundial com obras únicas e  primorosas, além de inspirar muitas gerações posteriores, mas também, foram apontados como os mais prolíficos usuários de ópio de todos os tempos, assim como, com sua jovem e bela figura, Lord Byron, o poeta maldito, também fazia parte do time. Não nos esqueçamos do inglês, Samuel Coleridge autor de A Balada do Velho Marinheiro, citado por Mary Shelley em Frankesntein, usuário não só de ópio, mas também de láudano, Coleridge foi presenteado com um ensaio sobre seu vício por Quincey, um amigo que também fazia uso frequente da droga.
Johann Wolfang von Goethe, estadista e uma das mais importantes figuras da literatura alemã, voz expressiva em dois movimentos literários, e autor de obras reflexivas como Fausto e Os Sofrimentos do Jovem Werther, fora durante toda sua vida escravo do ópio.
Sir Arthur Conan Doyle, fez de seu vício em morfina e cocaína, uma característica notável de seu mais ilustre e perspicaz personagem, Sherlock Holmes.
O criador de Admirável Mundo Novo, era um fã de LSD, Aldous Huxley, considerava a droga como um portal para profundas experiências espirituais, nos estagios finais de um câncer na garganta, pediu que lhe ministrassem um boa dose da droga que o fez morrer pacificamente algumas horas depois.
O homem que criou a dupla personalidade do Dr. Jerkyll, concluiu a história em seis dias, Robert Louis Stevenson, estava sob um frenesi de cocaína.
Segundo Stephen King, " alcoólatras constroem defesas como holandeses constroem diques", King é um dos nomes mais fecundos do gênero terror/horror na literatura desde Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, e, por muito tempo não aceitava que fosse alcoólatra, assim como temia ficar sem o " interruptor" que lhe rendia boas histórias, King fes uso de álcool e drogas para compor seus personagens de 1979 a 1987. No início de 1986, Stephen escreve, Misery, louca obsessão, que no original, Angústia, conta a história de um escritor torturado e encacerado por um enfermeira esquizofrênica, o que metaforicamente, deu a King a vazão para tentar expressar o dilema pessoal que vivia de uma forma mais discreta. O livro Os Estranhos, foi escrito por King sob forte influência de álcool e drogas, em seu recente livro Sob A Escrita, o autor revela como trabalhava até meia noite, com o coração a 130 batidas por minutos e cotonetes enfiados no nariz para estancar o sangramento causado pela cocaína. Stephen, também, não esconde de ninguém que não se lembra de ter escritos alguns de seus livros, como Cujo, o Cão Raivoso, mas admite que fez um bom trabalho.

A jornalista norte-americana, Olivia Ling, analisou a vida de seis escritores alcoólatras, e escreveu o Livro, The Trip to Echo Spring: on Writers and Drinking, ( A Viagem ao Armário de Bebida: sobre escritores e porres ), ainda inédito no Brasil, no qual revela como alguns autores desempenharam papéis tão trágicos que parecem cômicos, como o dia em que F. Fitzgerald foi a uma convenção no Hotel Ritz, vestindo pijamas ou o fato de Hemingway gostar tanto de uísque que, após fazer a barba, o escritor usa a bebida como loção. Segundo Ling, diversos fatores colaboram para que escritores sejam associados ao consumo de álcool e drogas, fatores que vão desde um histórico de uso de substâncias alucinógenas para inibir a timidez, até o uso posterior de álcool para enfrentar a pressão da fama.
Um dos pioneiros a investigar a associação de álcool e drogas na literatura foi o psiquiatra norte-americano, Donald Goodwin, da Universidade do Kansas, ao observar que, dos sete americanos laureados como Nobel de Literatura, cinco abusavam do álcool. Em seu livro: Alcohol and the Writer, ( Álcool e Escritor ), Goodwin, estabelece que a pandemia que atingiu nomes tão famosos da literatura, é atribuído ao trabalho longo e solitário, associado à predisposição de cada indivíduo.
Considerando a maneira pela qual tantas obras belíssimas nos foram legadas, fica o pensamento permanente sobre todos os autores que, movidos pela incessante busca à inspiração e a capacidade inventiva, não acharam mais o caminho de volta para a dependência. Friedrich Glauser, vítima da morfina aos 42 anos, sempre soube o final de seu livro, " Todas as justificativas inventadas para amenizar o vício são muito bonitas do ponto de vista literário ou poético. Concretamente, é uma desgraça. Pois, a pessoa destrói a si e a sua vida". Ou, ainda, como ponderou o brasileiro Ruy Castro certa vez: " seria bem provável que sem o álcool, escritores alcoólatras fossem mais geniais ainda" fecha aspas.

                                                                 By Stela Bagwell