Filmes de 2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PERFUME, DE PATRICK SÜSKIND

   

                                                                       O AUTOR

                                                

Patrick Süskind  nasceu em Ansbach, Baviera, Alemanha,  em 26 de março de 1949, filho do escritor e jornalista W. E. Süskid, Patrick, estudou História Moderna e Medieval na Universidade de Munique e em Aix-em-Provence, na França. Publicou primeiramente alguns contos, entre eles: “Uma Batalha” – incluído em uma antologia, A Pomba, em 1979. Mas foi “O Perfume”, lançado em 1985, seu primeiro livro de sucesso, seguido por “ A História do SR. Sommer” de 1991 e, em 1995, “Três Histórias”. Outro trabalho que lhe deu fama foi o monólogo dramático “O Contrabaixo”.
Muito pouco se sabe sobre a vida de Süskind, que é considerado uma das pessoas mais retraídas do cenário literário alemão. Süskind evita até mesmo noites de autógrafos e não é muito simpático à ideia de transformar seus livros em filmes,com medo de que sejam plagiados ou falsificados. Apesar disso, “o Perfume” foi transformado em filme por Tom Tykwer, tendo estreado em 14 de setembro de 2006.

Além de escritor, Patrick é também roteirista de televisão. Escreveu alguns roteiros para a TV alemã, como o seriado Der ganz normale Wahnsinn. Ao lado de Helmut Fischer escreveu o roteiro de Rossini, uma história que se passa no submundo de Munique. “O Perfume” foi publicado inicialmente em capítulos, no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, revivendo a tradição dos folhetins. A série “O Perfume” fez tanto sucesso que no final daquele mesmo ano (1985) foi transformada em livro. A obra alcançou o topo das listas de best sellers na maioria dos países em que foi publicada.

                                                                     O LIVRO

                                                 

Publicado pela primeira vez em 1985. Foram vendidos 15 milhões de exemplares em quarenta línguas. O título original alemão é Das Parfum, die Geschichte eines Mörders (tradução literal em português, O Perfume, História de um Assassino).
O livro conta a história de um homem que possui um olfato extraordinariamente apurado mas não possui cheiro próprio. A história situa-se no século XVIII, em Paris, depois em Auvergne, em Montpellier, em Grasse e finalmente retorna a Paris. O protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, nasceu no meio de tripas de peixe atrás de uma banca, onde a mãe, que algumas semanas depois foi executada por infanticídios, vendia peixe. Grenouille possui duas características excepcionais:
·         ele não tem cheiro nenhum, o que assusta sua ama e as crianças com quem ele vive no orfanato, mas permite que ele passe totalmente despercebido. Durante a história, essa ausência de odor, de que ele se dá conta somente bem mais tarde, será compensada pela criação de perfumes mais ou menos atraentes, que Grenouille utiliza de acordo com as circunstâncias a fim de ser notado pelos outros.
·         ele tem um olfato extremamente desenvolvido, o que lhe permite reconhecer os odores mais imperceptíveis. Conseguia cheirá–los por mais longe que estivessem e armazenava–os todos em sua memória, também excepcional para relembrar aromas. Esse olfato é sua única fonte de alegria, que ele aproveita para confeccionar, sem a mínima experiência, perfumes de qualidade excepcional.
Durante a sua vida teve vários acidentes e doenças, trabalhou como aprendiz de curtidor de peles e depois como aprendiz de perfumista e, graças às suas características, enquanto foi aprendiz de perfumista aprendeu várias técnicas para a criação de um perfume.
Grenouille um dia encontra uma jovem,com um perfume totalmente diferente de todos os outros milhares de perfumes que ele guardava na memória, e acabará por matá-la,com as suas próprias mãos, de tanto desejar apoderar-se do seu odor. Mas, esta jovem é apenas uma das muitas jovens que o protagonista acaba por matar (26 no total), em busca do perfume perfeito. No final da história, Grenouille volta a Paris e é partido aos bocados e comido por um grupo de pessoas no Cemitério dos Inocentes dando um final trágico para o protagonista. A ação divide-se entre o mundo dos perfumes, traduzido pelo título "O Perfume", que servem para encobrir o mundo dos fedores, dos crimes e da hipocrisia que caracterizam a cidade de Paris no século XVIII.
O livro, até pouco tempo considerado inadaptável para a linguagem cinematográfica, foi transformado em filme no ano de 2006 pelo diretor alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra). Süskind negociou os direitos de filmagem com o produtor, também alemão, Bernd Eichinger (A Queda, A Casa dos Espíritos). O filme contou com um elenco de celebridades, tais como Dustin Hoffman e Alan Rickman. 

                                  

O personagem central da história foi interpretado pelo jovem Ben Whishaw. O orçamento da produção extrapolou o valor de 50 milhões de euros, segundo informações contidas no sítio da Deutsche Welle. Além do cinema o livro foi inspiração para uma canção da banda Nirvana. Isso porque Kurt Cobain, vocalista e guitarrista, considerava "O Perfume" como sendo o seu livro favorito. A canção chama -se Scentless Apprentice, faixa 02 do álbum In Utero gravado em 1993.

                                     ANÁLISE LITERÁRIA DA OBRA

O Perfume é um livro enigmático, onde o leitor fica com a incômoda sensação de que perdeu grande parte do significado pelo elevado conteúdo surrealista evidenciados na forma de pensar do protagonista.
O livro conta muito do que a história de um assassino nascido em meio à podridão das ruas de Paris do século XVIII.  Não só o caráter surrealista, mas também uma temática realista/naturalista reforça a forma como o autor descreve o nascimento de Jean-Baptiste-Grenouille. Essa temática, elaborada para criar um grande impacto no leitor de forma a ressaltar a sensação de repulsa e asco devido à profusão de detalhes e minúncias, enriquecidas pelas associações olfativas e visuais.

                                     

Um nascimento sórdido, debaixo de uma mesa de limpar peixes, um local horrendo e fétido, o cordão umbilical cortado com a mesma faca com a qual sua mãe limpava os peixes minutos antes, um cenário perfeito, uma pobreza escancarada, uma mãe decapitada por tentativa de infanticídio, centenas de crianças órfãs, as ruas cheirando à cortume,  o constante cheiro de enxofre, a Europa e a sua falta de higiene, detalhes organizados meticulosamente por um escritor especialista em História Medieval.
Não só o caráter surrealista é reforçado pelo animismo concedido à paisagem, mas também os objetos associados a uma forte carga emocional, apresentados ao leitor como se fossem dotados de alma e sentimentos.
“ (...), as chaminés respiram. “
O livro não só traz uma história extremamente interessante, como também, lida com a vertente da psicopatia de uma forma não romantizada, Jean mata para adquirir a essência do corpo de mulheres, ele captura seus odores em vidro e pronto! Ele não as deseja, não as mata por vingança, não é bonito nem sedutor, é introvertido, sem qualquer traço de engenhosidade, mas tem um dom, sabe fazer ótimas essências e mata por isso. Seria esta, a real concepção de psicopata vista por Süskind? A ideia humana de que psicopatas são seres sem empatia, sem relação nenhuma com a humanidade, sem método, sem idealizações. A composição característica de Jean-Baptiste-Grenouille  é “ meio sem graça “ para os padrões corretos de assassinos fictícios, salvo quando ele mata, e o faz de maneira exótica e intrigante sem qualquer demonstração de sentimentalismo humano. Jean-Baptiste, não se parece nada humano, não tenta justificar sua conduta, mas surge trazendo consigo a morte e um grito sociológico, mudo,  que reclama seu direito à posse de tudo que toma para si.

  

O destino da personagem é traçado logo ao nascimento, para sobreviver, ele terá que matar,  terá que se tornar um estoico, despido de qualquer altruísmo, e viver apenas para si. Um fator marcante do romance de Süskind é a forma analítica com que o autor reproduz a mentalidade dominante dentro da sociedade francesa, outro pormenor que vem sendo analisado, é a nítida concepção de uma espécie de maldição, de uma vingança nemésica que sobrevêm a todos que renegam Grenouille que, de uma forma ou de outra e mesmo involuntariamente ou não atrapalham a realização dos objetivos do protagonista.
Assim o enredo é desenvolvido partindo da concepção do tipo de trabalho que Jean-Baptiste precisa realizar, num cenário em que hábitos de higiene diários são escassos e organicamente aumentariam a incidência do odor humano, Grenouille é o espectro de alma árida que espreita, seleciona, os grandes insumos humanos que tem diante de si, visto que o prodigioso nariz de Grenouille tem a particularidade de decodificar o ADN  de quem quer que seja, ele é muito bom nisso, sabe reconhecer se a mulher é loira ou morena apenas pelo olfato.
Süskind foi brilhante do começo ao fim, pois preenche o livro com toda a ambiguidade dos cheiros que representam  as incoerências da sociedade da época, será que alguém suportaria sentir cheiros tão fantásticos por tanto tempo?  O cheiro fétido do país das riquezas e belezas que deixava seu povo matar e morrer por tão pouco, morrer de fome ou de qualquer outro mal social que não chegava à mesa  da elite. Diante dessa visão o assassino politicamente incorreto ganha uma roupagem fantástica, posto que a  miséria, a fome, a carnificina, o infanticídio, os estupros, as barbáries, nenhum desses cancros o molestava, ele apenas gostava de fazer perfumes, gostava de adquirir as essências e guarda-las consigo para um projeto mais ambicioso, criar o perfume ideal, talvez,  houvesse uma tentativa de associação entre denúncia social e filosofia, Grenouille não matava por vingança, mas estava obstinado em criar perfumes incomuns.

                       

Jean-Baptiste-Grenouille morre, depois do objetivo alcançado, ele entrega  a si mesmo em oferenda, evidenciando seu não egoísmo, seu não subjetivismo em guardar para si o ápice de sua realização.

By Stela Bagwell

Fontes: Wikipédia, Literatortura